TEM GENTE COM FOME
Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Piiiiii
Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dzier
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar
Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu
ÚLTIMA QUIMERA
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
JOSÉ
JOSÉ
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
MORRO DO QUE HÁ NO MUNDO
ROTINA
Rotina...
Estou cansada de trabalhar e
ver todos os dias as mesmas pessoas no caminho; passar horas
trabalhando.
Chego em casa e meu marido
sempre do mesmo jeito, com a mesma disposição, a mesma comida para o jantar.
Entro no banho e logo ele começa a reclamar.
Quero descansar e assistir
minha novela, mas meus filhos não me deixam, porque querem brincar comigo e
conversar. Não entendem que estou cansada.
Meus pais também me irritam
algumas vezes e entre trabalho, marido, filhos, pais e cuidar da casa, eles me
deixam louca. “Quero Paz”.
A única coisa boa é dormir.
Ao fechar os olhos sinto um
grande alívio, me esqueço de tudo e de todos.
-
Ao dormir ...
-
“Olá, vim te ajudar”.
-
Quem é você? Como
entrou?
-
Sou um servo de Deus.
“Ele disse que ouviu suas queixas e que você tem
razão”.
-
Isso não é
possível, para isso eu teria que estar...
-
Isso, você está. “Não se preocupará mais em ver sempre as
mesmas pessoas, nem por agüentar o seu marido com suas reclamações e sua
disposição, nem seus filhos que te irritam, nem terá que escutar os conselhos de
seus pais e não terá mais qualquer casa para cuidar.”
-
Mas... Que
acontecerá com todos? Com meu trabalho? Minha casa ?
-
Não se preocupe. “No seu trabalho já contrataram outra pessoa
para o seu lugar e ela certamente está muito feliz porque estava sem
trabalho”.
-
E meu marido, meus
filhos?
-
“Ao seu marido foi dado uma boa mulher que o quer bem, o
respeita e o admira por suas qualidades, aceita seus gostos e defeitos e todas
as suas reclamações. Além disso, ela se preocupa com seus filhos como se fossem
filhos dela. De certo, tem uma emoção muito grande já que é estéril. Por mais
cansada que chegue do trabalho, dedica tempo a brincar com eles e para agradar
seu marido. Todos estão muito felizes”.
-
Mas não quero isso!
-
“Sinto muito, a decisão foi tomada”.
-
Mas isso significa que jamais voltarei a beijar o rostinho
dos meus filhos, nem dizer “eu te amo” ao meu marido e mostrar a eles o quanto
são importantes na minha vida, nem dar um abraço nos meus
pais.
-
Não, não quero morrer, quero viver, envelhecer junto ao meu
marido, fazer a viagem que há muito planejamos, colocar aquela roupa que comprei
há mais de 1 ano, levar meus filhos ao passeio que sempre prometi. Não quero
morrer ainda...
-
“Mas era o que você queria”... Descansar.
“Agora já tens seu descanso
eterno, durma para sempre”.
- Não, não quero, por
favor, Deus!
-
..... “Que aconteceu amor? Teve um pesadelo?” Disse meu
marido me acordando com paciência e carinhosamente.
-
Sim, um pesadelo horriv..... Parei a frase ao meio, olhei em seu
rosto, seu semblante preocupado comigo, ali do meu lado, e então, sorrindo
falei:
-
Não meu amor.... Não tive pesadelo nenhum, tive um encontro
com Deus, que nos adora, e que acaba de me dar uma nova
oportunidade.
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