A bomba atômica(Vinicius de Moraes)

Dos céus descendo Meu Deus eu vejo De pára-quedas? Uma coisa branca Como uma forma De estatuária Talvez a forma Do homem primitivo A costela branca! Talvez um seio Despregado à lua Talvez o anjo Tutelar cadente Talvez a Vênus Nua, de clâmide Talvez a inversa Branca pirâmide Do pensamento Talvez o troço De uma coluna Da eternidade Apaixonado Não sei indago Dizem-me todos É A BOMBA ATÔMICA Vem-me uma angústia Quisera tanto Por um momento Tê-la em meus braços E coma ao vento Descendo nua Pelos espaços Descendo branca Branca e serena Como um espasmo Fria e corrupta De longo sêmen Da Via-Láctea Deusa impoluta O sexo abrupto Cubo de prata Mulher ao cubo Caindo aos súcubos Intemerata Carne tão rija De hormônios vivos Exacerbada Que o simples toque Pode rompê-la Em cada átomo Numa explosão Milhões de vezes Maior que a força Contida no ato Ou que a energia Que expulsa o feto Na hora do parto. II A bomba atômica é triste Coisa mais triste não há Quando cai, cai sem vontade Vem caindo devagar Tão devagar vem caindo Que dá tempo a um passarinho De pousar nela e voar . . . Coitada da bomba atômica Que não gosta de matar! Coitada da bomba atômica Que não gosta de matar Mas que ao matar mata tudo Animal e vegetal Que mata a vida da terra E mata a vida do ar Mas que também mata a guerra . . . Bomba atômica que aterra! Bomba atônita da paz! Pomba tonta, bomba atômica Tristeza, consolação Flor puríssima do urânio Desabrochada no chão Da cor pálida do hélium E odor de rádium fatal Lœlia mineral carnívora Radiosa rosa radical. Nunca mais oh bomba atômica Nunca em tempo algum, jamais Seja preciso que mates Onde houve morte demais: Fique apenas tua imagem Aterradora miragem Sobre as grandes catedrais: Guarda de uma nova era Arcanjo insigne da paz! III Bomba atômica, eu te amo! és pequenina E branca como a estrela vespertina E por branca eu te amo, e por donzela De dois milhões mais bélica e mais bela Que a donzela de Orleães; eu te amo, deusa Atroz, visão dos céus que me domina Da cabeleira loura de platina E das formas aerodivinais — Que és mulher, que és mulher e nada mais! Eu te amo, bomba atômica, que trazes Numa dança de fogo, envolta em gazes A desagregação tremenda que espedaça A matéria em energias materiais! Oh energia, eu te amo, igual à massa Pelo quadrado da velocidade Da luz! alta e violenta potestade Serena! Meu amor . . . desce do espaço Vem dormir, vem dormir, no meu regaço Para te proteger eu me encouraço De canções e de estrofes magistrais! Para te defender, levanto o braço Paro as radiações espaciais Uno-me aos líderes e aos bardos, uno-me Ao povo ao mar e ao céu brado o teu nome Para te defender, matéria dura Que és mais linda, mais límpida e mais pura Que a estrela matutina! Oh bomba atômica Que emoção não me dá ver-te suspensa Sobre a massa que vive e se condensa Sob a luz! Anjo meu, fora preciso Matar, com tua graça e teu sorriso Para vencer? Tua enégica poesia Fora preciso, oh deslembrada e fria Para a paz? Tua fragílima epiderme Em cromáticas brancas de cristais Rompendo? Oh átomo, oh neurônio, oh germe Da união que liberta da miséria! Oh vida palpitando na matéria Oh energia que és o que não eras Quando o primeiro átomo incriado Fecundou o silêncio das Esferas: Um olhar de perdão para o passado Uma anunciação de primaveras! Vinicius de Moraes

sonho

você é do tamanho do seu sonho

Citações William Shakespeare

— Devemos aceitar o que é impossível deixar de acontecer. — Até mesmo a bondade, se em demasia, morre do próprio excesso. — O cansaço ronca em cima de uma pedra, enquanto a indolência acha duro o melhor travesseiro. — Vazias as veias, nosso sangue se arrefece, indispostos ficamos desde cedo, incapazes de dar e de perdoar. Mas quando enchemos os canais e as calhas de nosso sangue com comida e vinho, fica a alma muito mais maleável do que durante esses jejuns de padre. — Ninguém poderá jamais aperfeiçoar-se, se não tiver o mundo como mestre. A experiência se adquire na prática. — Se o ano todo fosse de feriados, o lazer, como o trabalho, entediaria. — Ventre grande é sinal de espírito oco; quando a gordura é muita, o senso é pouco. — Que é o homem, se sua máxima ocupação e o bem maior não passam de comer e dormir? — Do jeito que o mundo anda, ser honesto é (igual) a ser escolhido entre dez mil. — Hóspede oferecido (...) só é bem-vindo quando se despede. — Um homem inteligente pode transformar-se num joão-bobo, quando não sabe valer-se de seus recursos naturais. — Quem não sabe mandar deve aprender a ser mandado. — A mulher que não sabe pôr a culpa no marido por suas próprias faltas, não deve amamentar o filho, na certeza de criar um palerma. — As coisas mais mesquinhas enchem de orgulho os indivíduos baixos. — Ninguém pode calcular a potência venenosa de uma palavra má num peito amante..

Fé, esperança e caridade

Eram três anjos - e uma só mulher QUANDO A INFÂNCIA corria alegre, à toa, Como a primeira flor que, na lagoa, Sobre o cristal das águas se revê, Em minha infância refletiu-se a tua... Beijei-te as mãos suaves, pequeninas, Tinhas um palpitar de asas divinas... Eras - o Anjo da Fé! ... Depois eu te revi... na fronte branca, Radiava entre pérolas mais franca, A altiva c'roa que a beleza trança!... Sob os passos da diva triunfante, Ardente, humilde, arremessei minh'alma, Por ti sonhei — triunfador — a palma, Ó — Anjo da Esperança!... — Hoje é o terceiro marco dessa história. Calcinado aos relâmpagos da glória, Descri do amor, zombei da eternidade!... Ai, não! - celeste e peregrina Déia, Por ti em rosas mudam-se os martírios! Há no teu seio a maciez dos lírios... Anjo da Caridade!... Castro Alves

Amar e ser amado

Amar e ser amado! Com que anelo Com quanto ardor este adorado sonho Acalentei em meu delírio ardente Por essas doces noites de desvelo! Ser amado por ti, o teu alento A bafejar-me a abrasadora frente! Em teus olhos mirar meu pensamento, Sentir em mim tu’alma, ter só vida P’ra tão puro e celeste sentimento: Ver nossas vidas quais dois mansos rios, Juntos, juntos perderem-se no oceano —, Beijar teus dedos em delírio insano Nossas almas unidas, nosso alento, Confundido também, amante — amado — Como um anjo feliz... que pensamento!?